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Decadence avec Elegance: the beautiful losers
(ou, palavrosamente, “do Moulin Rouge ao Expressionismo e a Cabaret Culture na Alemanha "Gótica" de Weimar”, ufa!)
"Próximo de Bauhaus, provavelmente o artefato mais celebrado da repáblica de Weimar(1) foi um filme exibido em Berlim em fevereiro de 1920, O Gabinete do Dr.Caligari(2). Willy Haas escreveu mais tarde: "Aí estava a Alemanha "gótica", sinistra, demoníaca, cruel,"(3) Com seu enredo de pesadelo, sua tendíncia expressionista, sua atmosfera obscura, Caligari continua a personificar o espírito de Weimar para a posteridade quanto as construções de Gropius(4), as abstrações de Kandinsky(5), os cartazes de Grosz(6) e as pernas de Marlene Dietrich(7)."
(Peter Gay, Os Anos do Expressionismo, em seu livro "A Cultura de Weimar")
A primeira exposição de Toulouse Lautrec acontece no famoso cabaré Moulin Rouge (8), no boímio bairro Parisiense de Montmartre que na virada do século XIX para o XX recebe os artistas e intelectuais “alternativos” da Época. Em 1916, em plena Primeira Guerra Mundial, o quartel general dos artistas, escritores, politicos, pensadores e Dadaistas-proto-Surrealistas (9) de André Breton é no Cabatet Voltaire em Zurique. Em 1924 Breton escreve o o Manifesto Surrealista (ver link no final deste texto).
Em 1928, W.H.Auden, um dos principais nomes da poesia de língua inglesa do século XX, se interessou por Berlim talvez menos pelo fato de ser “um centro de ativismo politico de esquerda e de experimentacão musical” e mais pela “tolerância com que a cidade na época costumava encarar a sexualidade não-ortodoxa” (10).Além de desfrutar destas liberdades, Auden também trabalhou com Christopher Isherwood..
Os cabarés não eram apenas centros de comércio sexual e de drogas legais ou ilegais. Foram, desde o século XIX , também centros catalizadores e irradiadores de cultura avant-garde. Reuniam discussões vanguardistas nas artes, na filosofia e até na política.
Ao pronunciarmos a palavra “cabaré”, as imagens mais comuns são as cenas imortalizadas por Tolouse Lautrec em suas pinturas . E a Lola de Marlene Dietrich em “ Anjo Azul” com seu realismo fantástico e atmosfera nebulosa e barroca. Ou, na releitura de Liza Minelli em "Cabaret" baseado na obra de Christopher Isherwood relatando a liberdade e criatividade que da Berlim de Weimar antes do pesadelo Nazista desabar sobre todos. Lembramos também da boemia dos artistas e pensadores modernistas no Quartier Latin e outros bairros então pobres de Paris, a outra capital cultural daqueles anos conturbados. E uma dose de absinto, claro.
Antigos cabarés, o teatro burlesco, os “scketches” populares do “Teatro de Vaudeville” com suas maquiagens exageradas e circenses, as canções, como os trabalhos de Kurt Weil e Bertold Brecht, e outros que falam de forma simples dos sentimentos das pessoas, com shows vistosos, dramáticos e populares. Também no começo do século XX, quando o Cinema nasce, sua estética vai beber destas fontes e de outras comuns ao Expressionismo.
O musical “Cabaret” (1972 ) inspirado na obra de Chritopher Isherwood resgata e glamouriza o tema, mas a corista vamp Interpretada por Liza Minelli agora usa botas combinando com a meia arrastão, o corpete, a cinta-liga e chapéu coco. Patrice Bollon (11) comenta que este musical e o filme geraram uma moda em Londres que influenciou um novo grupo: O Bromley Contingent, do qual emergiria, entre artistas do pos-punk, a diva Siouxie Sioux. Siouxsie aparece como uma uma Liza Minelli pós-punk, atualizando o espírito decadentista dos cabarés da Belle Epoque, dos anos 20 e da Cabaret Culture alemã. De fato as cenas glam, punk e wave e pos-punk beberam sequiosamente de toda essa tradição “vaudevillesca” e “decadentista”, sintetizando seus significados em estéticas para o fim-de-século e milínio.
Os anos 1980, com a iminente ameaça de apocalipse nuclear e a falíncia do sonhos americanos e de paz e amor, se parecem muito com vários outros períodos anteriores desde a revolução industrial, principalmente a Berlim de Weimar pressentindo o horror que viria de 1939 a 1945, ou antes a Belle Epoque da Paris do Moulin Rouge que sucumbe ao horror da primeira Guerra mundial.
Antes de Weimar, os artistas que pegaram em armas no primeiro conflito mundial que se estendeu de 1914 a 1919 voltaram da trincheiras com uma noção ainda mais clara de que havia algo de podre no reino da Dinamarca. Ou melhor, algo de extrermamente errado na cultura européia enraizada no seio Greco-Romano. O Positivismo e o Racionalismo não haviam entregue o “bem” que prometeram: pelo contrario, durante a primeira Guerra Mundial entregaram ainda mais Horror, agora tecnológico e em escala industrial.
O cabaré foi o lugar daqueles que não tem o “poder” ou o “phallus” no apolíneo mundo da sociedade industrial e positivista. O lugar dos “belos perdedores” e dos “comedores de lotus”(12). O lugar de coisas “improdutivas” e “pouco práticas” não mensuráveis nos gráficos dos noticiários.
Coisas que, aos poucos, fazem a sociedade aceitar padrões de comportamento, antes considerados malditos. O cabaré nesta época foi a casa e refúgio para os fugitives de mundo que se tornava cada vez menos feito para seres humanos. Por alguns momentos de congraçamento nos esquecemos do mundo lá fora, e cantamos: “ This is a Happy House, we’re happy IN here.”
A face branca é a face do ator expressionista em seu personagem tragicômico, visceral e impuro, e não a face branca da pureza moral ou étnica. Infelizmente, faces deste segundo tipo enterraram a Republica de Weimar. (ver : "- A Crise dos Modernismos na época dos Fascismos”)
PS: "Beautiful Losers” é o título de um romance experimental de Leonard Cohen lancado em 1966 que foi sucesso na época. “Decadence avec Elegance” é a versão afrancesada que o rockeiro brasileiro Lobão fez do verso famoso do Kraftwerk em “Europe Endless” (1977) ª : ´ Promenades and avenues / Europe endless / Real life and postcard views / Europe endless / Elegance and decadence ª.
Leia também:
- " Decadence Avec Elegance "
- " A Crise dos Modernismos na época dos Fascismos ”
- " Manifesto Bauhaus - 1919- Martin Gropius ”
- “ Manifesto Surrealista- 1924 - Andre Breton”
- “1950 a 1980- Do Beatnick ao Gótico”
(1) República de Weimar- O período que a historiografia classifica como a “cabaret culture” oficial : o entre guerras ( 1919- 1938 ) na Alemanha, com todo a crise social e hiperinflação da Repáblica de Weimar.
(2) “O Gabinete do Dr.Caligari” (Das Cabinet des Dr.Caligari, 1920). Dirigido por Robert Wiene, é o filme seminal e modelo do cinema expressionista Alemão.
(3) Willy Haas- "Die Literature Welt"- citado pelo autor Peter Gay
(4) Walter Gropius- artista expressionista que escreveu o Manifesto Bauhaus , em 1919
(5) Kandinsky – pintor inicialmente Expressionista que em fase posterior desenvolveu um trabalho abstrato. Lecionou na escola Bauhaus .
(6) George Grosz- pintor Expressionista alemão de carater fortemente caricatural e politizado
(7) Marlene Dietrich interpreta a cantora de cabaré “Lola” no emblemático filme “O Anjo Azul” (Der Blaue Angel, 1930).
(8) “Toulose Lautrec et le Paris de Cabarets”- Jacques Lassaigne, (1967) reedit: 1976
(9) Dadaísmo : “Por volta de 1916, o poeta alemão Hugo Ball e a cantora Emmy Hennings, abriram em Zurique o Cabaret Voltaire, espaço semelhante aos bares e cafés que haviam antes da primeira guerra em Munique, incluindo em seu programa, leitura de poemas, execução de performances musicais e exibições de pinturas, atraindo dezenas de artistas e pessoas ligadas ‡ arte que estavam na Suíça para fugir dos horrores da guerra. Entre esses artistas estavam Tristan Tzara, Hans Harp e Marcel Janko, que se envolveram na fundação do movimento Dadá.” Dirce Guarda- “Corpo e Obra,Reflexões sobre o Corpo Na Linguagem Performática”.
Surrealismo: “ A palavra surrealismo foi usada pela primeira vez pelo poeta Guillaume Apollinaire em 1912 na apresentação de um balé de Jean Cocteau e Erik Satie, intitulado Parade, referindo-se a uma arte que ultrapassava as apaêíncias, desobrigada de fidelidade para com o real.” Florisvaldo Mattos em http://www.revista.agulha.nom.br/fmatos01.html
(10)W.H.Auden- José Paulo Paes e João Moura JR., 1986
Chritopher Isherwood – “Goodbye to Berlim” 1939
(11) Patrice Bollon- “A Moral da Mácara- Marveilleux, Zazous, D‚ndis, Punks, etc.” 1993(Morale du Masque, 1990)
(12) Comedores de Lotus - se refere aos “comedores de lotus” da ilha do Ciclope como relatado na obra “Odisseia” de Homero. A expressão é usada para se referir a pessoas que vivem para o dia, sem astucias e sem ambições.
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