Alguns nomes de peso, como, por exemplo, James Joyce, T. S. Elliot, Franz Kafka e Georg Trakl (este último mais comumente reconhecido como sendo um expressionista) certamente escreveram trabalhos carregados de características que não podem ser dissociadas desse movimento.
Ora, o que se quer dizer, entretanto, quando se afirma que determinado autor ou determinada obra literária é expressionista? Parece conveniente que iniciemos nossa resposta recordando algumas características universalmente reconhecidas como tendo sido exaltadas por esse movimento ou, antes, essa postura diante da arte. Como se sabe, o expressionismo procura retratar emoções intensas, principalmente a dor, a angústia. Na pintura, o emprego de figuras fisicamente deformadas para mostrar estados de espírito no mínimo turbulentos é uma constante.
Além disso, como nos lembra Kasimir Edschmid, ainda que tenha nascido na Alemanha e lá se desenvolvido com mais força, o expressionismo “é supranacional. Ele não é somente assunto da arte. É exigência do espírito. Não é programa de estilo. É um problema da alma. Uma coisa da humanidade”. A intenção dos expressionistas de retratar estados bastante profundos e obscuros da alma, bem como sua preocupação em ser, digamos, não apenas arte implicam, como não poderia deixar de ser, em uma recusa decidida dos padrões tradicionais de beleza. Isso, aliás, se explica também pelo esforço realizado pelos impressionistas de se opor ao objetivismo naturalista que até então havia imperado. Para eles, o que importará e a expressão do mundo interior do artista. As reações provocadas pelo mundo interior do homem interessarão tanto quanto aquelas provocadas por eventos exteriores. A humanidade era vista pelos expressionistas como estando imersa em um verdadeiro caos, resultante de sua submissão ao progresso científico e, conseqüentemente, ao materialismo. Esse progresso, aliás, contrastava, para eles, com o proletariado, destituído de qualquer possibilidade de desfrutar dos benefícios trazidos pelo progresso. Foi também com o intuito de combater essa situação que os expressionistas pensaram seu movimento como algo que pudesse abranger o desespero humano, recusando qualquer padrão anterior.
Isso posto, é possível dizer que o expressionismo é, como a ciência desenvolvida por Sigmund Freud ou a filosofia de Friedrich Nietzsche, cria da virada do século XIX para o XX, época inegavelmente conturbada. Freud, por sinal, parece ter sido valorizado por partidários desse movimento, já que sua psicanálise pôde ser vista como um aparato valioso para se compreender aspectos mais obscuros da psique humana. Do mesmo modo, os expressionistas se apropriaram da fenomenologia de Husserl, que era principalmente um estudo do eu. Ainda que talvez não tenham lido as obras desses autores com o devido rigor, os expressionistas certamente não ignoraram o impacto que suas obras teriam sobre a maneira de se conceber o ser humano.
Vejamos, agora, algumas características que os escritores influenciados pelo expressionismo empregaram a seus romances para satisfazer sua intenção de retratar de maneira intensa a vida interior de suas personagens. A linguagem usada por eles é habitualmente bastante direta, com frases relativamente curtas. Ainda assim, esses autores primam pelo uso de linguagem bastante abstrata, simbólica e associativa. É comum, também, o uso de metáforas exageradas ou grotescas. Além disso, vemos nas obras desses autores um grande esforço no sentido de descrever a vida interior de seus personagens e seus fluxos de consciência. Um bom exemplo desta última característica pode ser encontrado, digamos, logo na abertura de Retrato do Artista quando Jovem, de Joyce, em que o protagonista discorre longamente sobre sua infância, passando de um tema a outro aparentemente por livre associação. T. S. Elliot, por sua vez, nos oferece bons exemplos de explorações do subconsciente em poemas como Portrait of a Lady e Rhapsody on a Windy Night.
Ainda que o expressionismo se pretenda um movimento que busca retratar o sofrimento puramente humano e busque ser transnacional, não se pode ignorar que, até por sua origem em um momento social bastante conturbado e sua recusa veemente de padrões sociais ou estéticos impostos pela burguesia da época, ele não pode ser separado de certas intenções transformadoras. É verdade, por exemplo, que obras como A Metamorfose ou O Processo, de Kafka, retratam, com o uso de situações inusitadas e bastante desconcertantes, uma angústia que poderia ser dita simplesmente humana, e é verdade que essa angústia é descrita boa parte das vezes de maneira bastante crua. É verdade também que A Metamorfose exemplifica muito bem o uso deliberado de uma situação grotesca para retratar, então, os sentimentos no mínimo desconfortáveis vividos pelo protagonista. Ainda assim, talvez seja possível ver nessas obras um que de denúncia. Não haveria uma crítica dura nas descrições das atitudes da família do protagonista em A Metamorfose? E que dizer, também, do modo como é tratado, mesmo sem saber por que, o protagonista de O Processo?
Para os expressionistas, a opressão e a injustiça inerentes a uma sociedade em que predominam os valores burgueses parece ser inseparável do progresso científico e tecnológico que foram capitaneados principalmente por essa classe. Não devemos nos esquecer de que, para falar do que é puramente humano, parece no mínimo interessante atacar aquilo que impede que nos reconheçamos como puramente humanos, e problemas sociais turbulentos certamente estão entre os fatores que causam esse tipo de dificuldade, à medida que as pessoas se reconhecem como membros desta ou daquela classe, deste ou daquele país e assim por diante. Mais do que isso, não devemos nos esquecer de que o expressionismo tem sua origem em um período socialmente turbulento e é, desde seu início, uma resposta a um conservadorismo que certamente abraçava a ideologia do progresso e, como bem sabemos, não estava particularmente interessado nos custos sociais desse progresso. É natural, então, que os expressionistas, de maneira geral ao menos, tenham realizado, ainda que em diferentes graus, ataques à ideologia do progresso que, pouco tempo antes, poderia ser considerada hegemônica. Podemos encontrar um exemplo disso, ainda que seja um exemplo quase demasiado sutil, em alguns poemas de Trakl, que fala, por exemplo, na loucura da cidade grande, mas usa um tom saudosista e aparentemente mais amigável ao falar de ambientes mais bucólicos em poemas como Abendlied.
No fim das contas, pode-se dizer que a maneira como o expressionismo se manifestou (e, de certo modo, manifesta-se até hoje) na literatura refletiu a tentativa, por parte dos escritores influenciados por esse movimento, de realizar em seus textos as mesmas finalidades que foram perseguidas por expressionistas que praticavam outras formas de arte. A intenção transformadora que vemos em boa parte dos partidários do movimento parece mais atual do que nunca hoje em dia. É importante notar, além disso, que a valorização da vida interior dos personagens e de fluxos de consciência talvez tenha sido uma contribuição definitiva e de valor incalculável a autores mais contemporâneos. Talvez não seja um grande exagero dizer que, nos últimos tempos, mais do que apenas contar uma boa história, a literatura busca grandes personagens, e estes não existem sem conflitos genuinamente humanos. Ou talvez apenas, para nossos gostos contemporâneos, não seja possível se contar uma boa história sem bons personagens... E a vida nestes tempos parece dura e conflituosa demais para que sentir o que quer que seja por qualquer personagem plano ou estereotípico demais.
Bibliografia introdutória recomendada:
Edschmid, Kasimir, Expressionismo na Poesia;
Elliot, T. S., Portrait of a Lady;
Elliot, T. S., Rhapsody on a Windy Night;
Joyce, James, Portrait of the Artist as a Youngman;
Joyce, James, Ulysses;
Kafka, Franz, A Metamorfose;
Kafka, Franz, O processo;
Trakl, Georg: alguns poemas podem ser encontrados em http://gutenberg.spiegel.de/autoren/trakl.htm
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