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O Romantismo
[por Marcos Balieiro ]

 
 

A maior parte das pessoas associa o romantismo a nomes como Byron, Shelley e Álvares de Azevedo. É freqüente, então, que esse estilo normalmente seja visto como bastante sombrio. Não falta quem acredite que os textos românticos tratem principalmente da morte, da noite e de outros temas desse tipo. Além disso, é fato que quase sempre a palavra “romântico” se associa a paixões desmesuradas. Trata-se, como tentaremos mostrar aqui, de uma visão que, ainda que não esteja por si mesma equivocada, não dá conta da diversidade que esse movimento literário atingiu.

 
 
 

Podemos dizer, de início, que se trata de um movimento de vanguarda, surgido na Europa por volta de 1800. Foi uma reação ao iluminismo e, talvez em menor escala, ao neoclassicismo. Sabemos que este último, como o próprio nome já indica, buscou resgatar certos valores da antigüidade grega e romana, o que valeu tanto para o rigor formal praticado por seus adeptos quanto para a temática que podia ser vista nas obras. O iluminismo, talvez o maior alvo dos autores românticos, tinha, por sua vez, uma visão extremamente otimista do homem, que era apresentado por autores desse movimento como um ser primariamente bom. Outra característica do iluminismo era a grande valorização da razão. Para os iluministas, o homem seria um ser cosmopolita que, além de ter praticamente a obrigação de buscar conhecer racionalmente tudo que fosse possível, deveria exercer ao máximo sua sociabilidade. Além disso, pode-se dizer que a concepção iluminista de qualquer forma de arte incitava a um rigor formal nada desprezível. Textos de crítica de arte do período iluminista tipicamente versam sobre que procedimento faria de uma obra a mais apropriada para, em função dos efeitos que exerceria sobre uma natureza humana imutável, receber a aclamação universal. Um bom exemplo pode ser encontrado no Elements of Criticism de Henry Home, Lorde Kames.

Tendo surgido como reação a essa maneira de se conceber o homem e a arte, o romantismo, de maneira geral, firmou-se como um movimento que valorizava as paixões exacerbadas e tudo o que fosse misterioso ou místico. Além disso, teve caráter notoriamente nacional, tendo-se desenvolvido de maneira muito diferente nos diferentes países em que surgiu. Na Inglaterra, por exemplo, consistiu principalmente de literatura popular, feita para se atender aos anseios da burguesia. Na França, por outro lado, adotou um bom mais moralizador, talvez por influência dos liberais conservadores. Na Alemanha, exaltou o individualismo e os valores nacionais. De qualquer maneira, o romantismo resulta, em todos os casos, em obras nas quais predominam paixões intensas, fervorosas. Talvez seja isso que permite ligar, por exemplo, obras como a de Byron, a de Jane Austen e a de Goethe. É interessante notar, também, a maneira como o amor é tratado por entusiastas do romantismo: trata-se quase sempre de algo que praticamente consome por completo os indivíduos acometidos por ele. É importante notar, porém, que isso nem sempre tem efeitos devastadores: se o Werter de Goethe é levado a uma situação da mais desoladora inclusive por conta dessa paixão, a Elizabeth que protagoniza Pride and Prejudice, de Austen, além de ser uma heroína bastante espirituosa, decidida e bastante rebelde para seu tempo, encontra, ao fim da história, felicidade genuína ao ver concretizadas suas expectativas amorosas.

Outro aspecto inerente ao romantismo foi a valorização da Idade Média que pôde ser vista em boa parte de seus autores. Talvez isso se explique pelo fato de ter sido ele um movimento que, prezando as paixões exacerbadas, valorizaria naturalmente um período naturalmente associado a aventuras e ao heroísmo. Além disso, não devemos nos esquecer que o fato de os românticos terem certo gosto pelo mistério certamente faria com que se voltassem para um período em que a razão não era universalmente aclamada.

No Brasil, como bem sabemos, o romantismo pode ser dividido em basicamente três fases, ou gerações. O início do movimento (e, portanto, também da primeira geração) acontece com a publicação de Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves Dias. Publicada apenas quatorze anos após a independência, a obra da início a uma fase em que a literatura valoriza o nacionalismo e a liberdade, refletindo um momento em que o país, então recém libertado, precisava ainda tratar de construir algo como uma identidade nacional. É comum, nessa fase, a valorização da figura do índio, já que não tivemos por aqui algo como uma Idade Média. A segunda geração, cujo maior expoente provavelmente foi Álvares de Azevedo, é habitualmente chamada ultra-romântica e está mais próxima da imagem que comumente se faz do romantismo. Bastante influenciado por Byron, o autor tratou à exaustão de temas bastante sombrios e de amores desesperados. Tivemos, por fim, a terceira geração, também chamada condoreira, notabilizada por seu idealismo. Muitos dos autores que a constituíam participaram, por exemplo, de movimentos pela abolição da escravatura. Vale a pena notar que é nessa fase que surge aquele que, para desgosto de alguns, é considerado o primeiro grande romancista brasileiro, José de Alencar.

Tudo isso dito, talvez seja oportuno buscar compreender de que maneira alguns aspectos do romantismo foram, por assim dizer, esquecidos, o que resultou na imagem que esse movimento manteve até nossos dias. Em primeiro lugar, como já vimos, podemos simplesmente dizer que essa não é uma imagem completamente errônea. Qualquer um que leia boa parte do que foi escrito por Byron ou por Álvares de Azevedo, bem como ao menos alguns dos textos escritos por Shelley, encontrará sem dúvida uma exaltação à noite, ao mistério e à morte, bem como a defesa de certo tipo de hedonismo decorrente da percepção que esses autores tinham da fugacidade da existência. Nos casos mais específicos de Byron e Álvares de Azevedo, pode-se perceber, por vezes, até mesmo um anti-cristianismo. Desse modo, não há qualquer problema em associar características como essas ao romantismo, desde que não se perca de vista que ele jamais se reduziu a isso.

Além disso, é preciso notar que a literatura gótica teve seu berço no romantismo. Alguns dos grandes nomes do romantismo certamente colaboraram para que isso acontecesse. Por exemplo, é bastante conhecida a história da noitada protagonizada por Byron, pelo casal Shelley e por John Polidori, que teria resultado no germe do que mais tarde seria o conto Frankenstein e em uma pequena história de Byron que depois Polidori transformaria no conto The Vampyre. Certamente a literatura gótica está muito próxima do tipo de clima e de temática que se associa comumente ao romantismo, e podemos pensar que isso contribuiu para definir que tipo de visão desse movimento seria preservado pela posteridade. Talvez isso não fosse aprovado, digamos, por Victor Hugo ou por Hölderlin, mas não há como negar que essa concepção não seria exatamente repudiada por um grande número de autores que certamente foram de suma importância para que o romantismo pudesse, ao tratar de aspectos do ser humano que o iluminismo mantivera sistematicamente silenciados, constituir um movimento consistente e de irresistível apelo popular.

Bibliografia introdutória recomendada:

Álvares de Azevedo, Lira dos Vinte Anos;

Austen, Jane, Pride and Prejudice;

Castro Alves, Espumas Flutuantes;

Goethe, Johannes, Os Sofrimentos do Jovem Werter

Gonçalves Dias, Suspiros Poéticos e Saudades;

Gordon, George, Lorde Byron, The Complete Works of Lord Byron;

Guinsburg, J. (org.), O Romantismo;

Moreau, Pierre, Le Romantisme;

Shelley, Percy Bysshe, Poetical works; including material never printed before in any edition of the poems.

 

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