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Com a divulgação de um manifesto em 1886, esse movimento receberia o nome de simbolismo. Esse movimento, podemos dizer de início, tinha caráter inegavelmente místico e individualista. Alguns dos autores mais conhecidos que integraram esse movimento na França foram Rimbaud, Verlaine e Mallarmé. Ainda que Baudelaire possa, de algum modo ao menos, ser visto como um precursor, ele ainda não fazia parte, quando de seus primeiros escritos, de um movimento simbolista propriamente dito. Não é demais lembrar que As Flores do Mal, obra mais conhecida de Baudelaire, data de 1857 e, portanto, de alguns anos antes do que viria a ser propriamente chamado simbolismo. Isso não impede, evidentemente, que Baudelaire tenha tido, como sabemos, influência nada desprezível sobre os autores simbolistas.
Esse caráter é responsável por algumas das características mais evidentes que podem ser observadas na literatura simbolista. Em primeiro lugar, podemos dizer que o subjetivismo é uma das características mais básicas do simbolismo. Em detrimento da visão mais objetiva e fria da realidade que era apregoada por autores do realismo e do naturalismo, os simbolistas privilegiavam uma visão individual da realidade. A ênfase estava sempre na maneira como um determinado indivíduo percebia o mundo. Ainda que tenhamos aqui uma aproximação com o romantismo, ela não deve ser enfatizada em demasia: no caso do romantismo, o apelo era pura e simplesmente ao sentimento. No caso do simbolismo, o que vemos é ainda mais radical, já que os autores recorrem constantemente ao sonho e a algo que quase poderíamos dizer ser o inconsciente. Ainda que esse seja um conceito que ainda não está bem definido nos autores simbolistas, não seria exagero afirmar que eles mostram grande preocupação em, digamos, determinar de maneira mais profunda os processos mentais que constituem o eu, e isso é algo que não ocorria ainda no romantismo.
Conciliar essa ênfase no indivíduo e a total recusa dos parâmetros realistas e naturalistas tem uma implicação quase evidente: os simbolistas abraçam a intuição para interpretar a realidade que os cerca. Fazem constantemente o uso da sugestão em lugar da objetividade. Criam em seus textos uma verdadeira atmosfera de sonho, recorrendo o tempo todo a palavras como névoa, bruma e outras do tipo. Nunca é demais lembrar, o que está em jogo é o tempo todo a percepção individual da realidade, sendo que o indivíduo é não necessariamente analisado. O que se pretende é que ele possa efetivamente expressar sua maneira de ver o mundo. O uso de expressões vagas, além de criar deliberadamente uma atmosfera onírica e misteriosa, talvez seja também um artifício para deixar claro que é impossível acessar diretamente as percepções e a visão de mundo de outrem. As portas para esse tipo de subjetivismo, vale lembrar, já estavam abertas desde a segunda metade do século XVIII, quando uma série de pensadores, ainda que reconhecessem que fosse possível construir um “chão comum” a partir do qual pensar o sujeito, a realidade e os problemas sociais, já aceitavam que o sujeito é o núcleo a partir de cujas percepções a realidade seria, por assim dizer, construída. Além disso, a inspiração mística que percebemos no simbolismo não poderia deixar de lado o fato de que, de maneira geral, a experiência mística é sempre tida como algo invariavelmente individual. Convém notar que isso não é negado nem por autores que se dedicaram à filosofia e, portanto, a um tipo de discurso que talvez não devesse estar interessado em misticismo ou ocultismo. Matias Aires, iluminista português, afirma só falar sobre a experiência mística porque não passou por ela (caso tivesse, simplesmente não teria como expressá-la apropriadamente). No século XX, Wittgenstein, que parece ter tido uma experiência desse tipo, basicamente cala no que diz respeito a ela em seu Tratactus Logico Philosophicus
É interessante que nos detenhamos, agora, em alguns recursos literários empregados com freqüência por escritores simbolistas. A temática, como já deve ter ficado evidente para o leitor a esta altura, é predominantemente espiritual, até mística. Também se destacam passagens (e até obras) em que o eu lírico discorre longamente sobre suas próprias visões de mundo. Outra característica marcante é que a poesia simbolista apresenta sempre grande preocupação com a musicalidade. Isso se reflete em uma preocupação com a métrica maior do que poderíamos observar, por exemplo, no romantismo. Além disso, existem certos recursos que os autores simbolistas empregam constantemente para conferir uma sonoridade quase musical a suas obras. Os mais evidentes são, quase sem dúvidas, a aliteração, que consiste na repetição de letras ou sílabas em uma mesma frase (como, por exemplo, em “vozes veladas, volúpias dos violões), e a assonância, que é a repetição fônica de vogais (como, digamos, em “Na messe que estremece”).
Uma outra característica que não podemos excluir em qualquer descrição do simbolismo é a sinestesia. Ao tentar descrever suas vidas interiores e percepções da realidade que sempre remetem a uma perspectiva particular, os autores simbolistas aplicam constantemente esse recurso, que consiste basicamente em descrever sensações que mesclam mais de um sentido, como por exemplo um “cheiro doce” ou um “grito vermelho”. É essencial notarmos que o emprego desse tipo de formulação está inserido em um contexto determinado, em que é preciso buscar formas originais para se descrever algo que não seria acessível pela linguagem mais convencional. Não é apenas uma brincadeira lingüística, mas a busca por meios para expressar certas instâncias que, até então, haviam passado praticamente despercebidas pela literatura.
Poderia parecer, pelo que foi dito até aqui, que o simbolismo se limitou à França. Ora, sabemos que não é verdade. Além das várias influências que as idéias simbolistas exercem até hoje, certamente numerosas demais para serem enumeradas em um texto como este, podemos mencionar, como autores verdadeiramente simbolistas em outras paragens, como Oscar Wilde e Symons, na Inglaterra, Rilke, na Alemanha (ainda que sua obra já apresente certos aspectos modernistas), Camilo Pessanha, em Portugal.
Para encerrar, convém que façamos referência aos dois autores mais conhecidos do simbolismo brasileiro. O primeiro deles, Cruz e Souza, legou-nos uma obra que é por vezes carregada de misticismo e, por outras, concentrada no satanismo e no erotismo. Seus textos apresentam uma visão bastante trágica da existência, além de tentativas recorrentes de criar correspondências entre concreto e abstrato. Como curiosidade, podemos observar a verdadeira obsessão do poeta com a cor branca. O segundo autor que vale a pena mencionarmos aqui é Alphonsus de Guimaraens, que tem na morte da amada seu tema preferido. Seus versos são bastante melancólicos e têm uma musicalidade bastante evidente.
Bibliografia recomendada:
Alphonsus de Guimaraens, Kyriale
Baudelaire, Charles, Lês Fleurs du Mal
Cruz e Souza, Missal e Broqueis
Mallarmé, Stéphane, L’après Midi d’un Faune
Rimbaud, Arthur, Une Saison en Enfer
Verlaine, Paul, Jadis et Naguère
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