q 6
Home News Agenda The MaoZoleuM f e s e u
jt kg gk, fh dh
k.i
  A morte varrida.
Enquanto não retornamos ao pó, nos amontoemos.

[por Bertold/Javier]

 
 


A instalação "Sankt Diablossys" (2002) não chega a ponto de feder mesmo tratando de dois temas essencialmente pútridos: a morte e detritos. Revistas pornôs, roupas rasgadas, fotos, jornais, camisinhas, caixas de ovos, seringas usadas, garrafas, enlatados, filmes de terror, bonecos, etc; é do lixo que resurgem as sombrias figuras penitentes do artista Jonathan Meese. Carregam consigo os miasmas do vício e da decomposição urbana. Lembram inclusive - não por acaso - aos frequentes grupos de leprosos, loucos, enfermos e miseráveis, exilados da Salvação Divina e da Misericórdia, que vagavam durante a Idade Média.

 
 
 


Ambos os conceitos representam o nada e a probreza ao mesmo tempo em que reafirmam, enquanto vida e o “prazo de validade”, assim digamos, o prazer e a riqueza. A partir do momento que o ser humano tomou consciência de sua existência também se conscientizou de seu destino. A fim de aproveitar o tempo que lhe resta, encontrou nas vanitas (no sentido de efêmero, ilusório, engano, decepção) o seu conforto material enquanto também é matéria viva. Ao analisar o destino final destes refúgios é possível traçar a sombra de seu consumo, seus hábitos, deleites, medos, vícios, etc; assim, morte e lixo, vida e consumo, estão intimamente ligados. O avesso de um é a face do outro.

 

“Lembra-te que és pó, e ao pó retornarás”.

"Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata a toda a ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada."

Primeiro soneto à Maria dos Povos de Gregório de Matos

Os versos do poeta, de tão atuais, parecem sussurrar no ouvido dos ávidos consumidores de cosméticos, viciados em academias e adeptos às cirurgias plásticas. A psicologia analítica explic, com outras palavras, o fênomeno da estrofe:, "a cultura ocidental está possuída pela busca do ”arquétipo de Puer Eternus", ou seja, que se distancia cada vez mais do seu completentar arquetípico, o Senex, o velho, dificultando as vivências simbólicas do envelhecimento e preparação para a morte." (1)

Mas não deixemos todas angústias e incertezas somente ao nosso último respiro. Muito antes, ao decorrer de nossa vida, nos deparamos em momentos de crise e reflexão. Uma delas, bem oportuna ao tópico, é a questão do sepultamento dos nossos:

Já no Paleolítico Superior existem registros dos possíveis primeiros rituais relacionados ao porvernir dos que deixam e dos que ficam. À medida que o tempo atravessa a História da Humanidade, estes rituais se aperfeiçoaram, se diversificaram, se perderam ou se reencontraram. Afinal, além da problemática existencial relacionada ao "além" ou ao "nada", resta a cadáver que, a priori, deve ter uma destinação específica.
 
A solução mais praticada pelos romanos era a cremação de carcaças. A medida era duplamente eficiente pois evitava a crença do retorno dos mortos enquanto que as cinzas ocupavam um espaço menor para a sociedade do Pão e Circo, onde, numa mesma batalha de gladiadores, "contava com 500 homens a pé (condenados, escravos e prisioneiros de guerra) e trinta a cavalo, além de vinte elefantes. A introdução de jogos sem sobriventes dá idéia da carnificina." (2) Com o advento do Cristianismo, a barbárie dos Coliseus acabou assim como as cremações, que deram lugar ao sepultamento e, porquê não, outros incômodos.

Durante a Idade Média, o morto se aproximou, pouco a pouco, da Igreja até os altos membros da sociedade finalmente possuírem incluso o interior dos templos religiosos alterando a geografia das Catedrais com suas exuberantes capelas particulares. O cúmulo desta atividade urbanística está na Igreja Real de São Francisco, em Évora, Portugal, uma capela inteira adornada de ossos humanos!

A questão básica do sepultamento em terra santificada também influenciou a dinâmica entre a metrópole e suas colônias pois trouxe mais transtornos que benefícios aos portugueses e espanhóis (não poucas vezes cidadãos rejeitados da sociedade européia) que morriam em terras selvagens, ou melhor, não-cristianas. A América, por um bom tempo, foi um esgoto de almas condenadas, duplamente rejeitadas, esperando pela santificação de seus terrenos e restos mortais. Logo o Paraíso terreno estava mais para um Limbo que a visão em si de Salvação.

Nota-se portanto que aonde o humano for, a problemática do cadáver sempre será um fator determinante na cultura e urbanização do novo espaço conquistado. Vale ressaltar também que em todos os casos mencionados - e em muitos outros - o destino de um indivíduo médio é quase sempre o mesmo do lixo; seja no processo de "eliminação" exemplo. ou de sua "conservação sustentável". Na "atualidade", as valas comuns retratam bem a ínfima dignidade de um indigente e detritos quaisqueres.

“Na Natureza nada se cria, nada se perde...

"Ó, não aguardes, que a madura idade,
Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada."

Primeiro soneto à Maria dos Povos de Gregório de Matos

O lixo propriamente pode ser dividido em três categorias: As duas primeiras, devido à natureza orgânica, são as mais indesejáveis: as águas ferventes (urinas, fezes, secreções e fluídos humanos) e o material putrefato (de outras origens) causam verdadeira repugnância pelo aspecto, odor e significado fúnubre, causados pela decomposição. A terceira está geralmente relacionada à produção industrial.

Novamente será no curso da História que encontraremos os desafios do fim dos dejetos humanos, animais e vegetais. Conforme os agrupamentos sociais cresciam em distintas épocas (Roma ou Paris, por exemplo), a mortalidade esteve diretamente ligada ao bom desenvolvimento do sistema de limpeza pública. Uma das soluções está na adubagem, técnica conhecida desde os primórdios das civilizações. Enquanto na China proporcionava grandes avanços à população, a ignorante Europa Medieval sofria com a sucessão de epidemias devastadoras. "Não havia em geral ruas pavimentadas, canalização, suprimento centralizado de água e coleta de lixo, assim como a destinação adequada de carcaças de animais e cadáveres" (2). Somente no século XVI (coincidindo com a retomada da razão Renascentista) este patamar modificou-se (bem) pouco para a melhor.

Quanto ao terceiro grupo, os inorgânicos, são em maioria produtos de difícil absorção do tempo: químicos, plásticos, metais, minerais, etc. A estes deve-se ao avanço do progresso ocidental, assombrado pelo fantasma da estagnação ou pior, cujas necessidades estão muito além da subsistencia.

Um episódio interessante a respeito está nas Vanitas, tendência – a grosso modo - enraizada na decadência e o envelhecimento pessoal e/ou coletivo na arte, principamente nos séc. XVI e XVII. Valdés Leal, pintor barroco espanhol, enfatiza em Jeroglífos de nuestras postrimetrías (1672), o verdadeiro sentido da satisfação pessoal sob uma ótica tão violenta quanto moralista. Nela, "a alegoria da morte em forma de esqueleto posa um pé sobre o Globo, e o outro, sobre armaduras e preciosos tecidos; leva uma caixa mortuária debaixo do braço, sua inseparável foice, apaga a vela e aponta ao letreiro (in ictu oculi) enquanto nos encara desafiadamente com suas costelas vazias, como se quisesse dizer que num instante todo o mundano se desvanecerá ante a chegada do momento final" (3).

Tais relatos históricos serviram para fermentar e unir algumas idéias abstratas acerca do lixo e a morte: Uma delas, os urubus e corvos, aves de rapina, estão fortemente associados às duas idéias, assim como também estão, os pântanos, redes de esgoto, presídios, azilos, aterros, hospices (locais destinados à morte natural dos internos, ao contrário dos hospitais), até fenômenos sociais contemporâneos como as favelas e aterros. Para estas áreas são, de acordo com H. P. Lovecraft, "sólo fértil onde medraram tipos e personagens de lendas e mitos sombrios que persistiram na literatura de mistério até os nossos dias, mais ou menos disfarçados ou alterados pela técnica moderna." (4)

A própria base da religão Católica, a recompensação espiritual no Paraíso, está vinculada ao seu avesso fétido. A Pureza e Imortalidade excluem em absoluto a presença da carne - e sua fatídica putrefação –, vistas sempre como símbolos do pecado, da transgressão, corrupção e imundície, em locais purificados (ou seriam esterilizados?).

Os símbolos são muitos, até mesmo um utensílio de limpeza extremamente cotidiano como a vassoura carrega implicações culturais nefastas! "Entre os gregos e romanos, colocá-la atrás da porta era uma forma de afastar o terror infantil de faunos e silvanos, mensageiros da morte. Para evitar trabalhos de feitiçaria a vassoura não pode cair em mãos estranhas, nem deve ser emprestada. Não se varre casa à noite para não pertubar os mortos." (3) Adiciono também os costumes populares de varrer a casa de dentro para fora logo após a saída do defunto e ao retornar do enterro higienizar os pés antes de entrar. Nota-se a importância da esterelização da vida, ou dos que ficam, ao menor contato com as impurezas da morte.

 

... tudo se transforma”.

"O Belo é podre, e o podre, belo sabe ser.
Ambos pairam na cerração e na imundície do ar."

Macbeth, de Shakespeare

 
Os fortes laços entre o imundo e o carnal encontrados desde o planejamento de uma cidade até fundamentos religiosos e objetos de uso diário no pensamento ocidental comprovam que eles sempre estiveram juntos na História, na arte entretando houve rupturas. Como se a própria Arte evitasse apodrecer-se por dentro, isto é, do motivo ao painel.

Quanto à morte retratada é sabida a extensa quantidade de trabalhos acerca do tema nas mais dististas áreas e expressões (para citar alguns: Goya, Henry Moore, James Ensor, Joseph Beuys, Ingmar Bergman...). Aos dois conceitos juntos também é possível encontrar vasta experimentação no campo literário no qual sem dúvidas Edgar Allan Poe e a novela gótica do séc. XVIII são os grandes favorecidos. Um detalhe importante é que frequentemente nestes contos a decadência é a síntese da queda e do pó, não necessariamente a exposição do lixo. Exceção à regra está em Muchachos comiendo uvas y melón (1650), de Bartolomé Esteban Murillo, pintor barroco, que discretamente pintou alguns pedaços de melão em meio à malandra fartura, trata-se de um raro exemplo artístico no qual o lixo e a morte não estão relacionados.

Por outro lado, no século XX, "a teoria do "nada se joga fora, tudo se aproveita" é aplicada à economia da fome e do desemprego; as expressões artísticas mais marcantes são as que conseguem se desvincular das estreitas leis do mercado de arte". (5) Da mesma forma que os escrementos e restos de alimentos ou animais é aproveitável a terra como adubo, o lixo e sua irmã decomposta encontraram a reutilização social nos museus e galeria de arte.
A chinesa, Xing Danwen, explora a falta de identidade, o consumismo e a validade dos “seres de plástico” na série fotográfica, Duplication (2003); argumento similar ao dos sarcásticos irmãos, Jake e Dinos Chapman, em Spit on your grave (2000), onde encontram na carnificina do Holocausto o messmo sentido funesto de vida e uso “descartável”.

O desprezo social quanto aos “ofícios baixos” da limpeza é escancarado pelo escultor, Duane Hanson, em Queenie II (1998), uma excelente reinterpretação de profissões fundamentais à manutenção urbana como o coveiro e gari, ou versões antiquadas dos mesmos, comos os tigres cariocas do século XIX (barrios cheios de escrementos carregados pelos escravos para os mangues distantes da cidade) .

A reciclagem possui grande apelo nas obras do escultor brasileiro, Washington Santana, que do lixo cria figuras emblemáticas e curiosas. Impacto similar ao de Duchamp quando apresentou sua Fountain na exposição da Sociedade de Artistas Independentes de Nova York, em 1917.  

Por fim chegamos ao Total torpor, total malaise (2002) que resume com extradiordinária eficácia todas as imagens e argumentos expostos neste artigo. Um retrato escatológico, corrompido, porém honesto de um Dorian Gray amortecido pelos bens de consumo e pequenos vícios do cotidiano que, ignorante de sua fragilidade ante ao tempo e questões existenciais, cria seu próprio pântano pestilento de latas de refrigerante amassadas, garrafas de bebida, revistas Vanity Fair, pedaços de comida, e a foice à espreita. O processo da célebre frase bíblica "lembra-te, homem, que és pó, e ao pó retornarás", ilustrado em câmera lenta por Tony Matelli, escancara ao público perguntas funestas e urgentes. Onde acumularemos o lixo? Seja onde for, tem espaço para nós?

"Uma branda exalação de merda humana, cálida e triste, revolvia no fundo da alma a certeza da morte."
Gabriel Garcia Márquez

Bibliografia:

1. OLIVEIRA, Marcos Fleury de; Reflexões sobre a morte no Brasil, Editora Paulus, 2005.
2. EIGENHEER, Emílio Maciel; Lixo, Vanitas e Morte - considerações de um observador de resíduos, Editora Eduff, 2003.
3. Arterama - Historia del Arte, Editora Vicens Vives, 2003.
4. LOVECRAFT, Howard Phillips; O Horror Sobrenatural na Literatura, Editora Francisco Alves, 1987.
5. RIBEIRO, Alexandre Dória; A Arte do Lixo - Washington Santana, Editora Dórea Books and Art, 1993

 

 
   
[Kinophilia | próxima página]
   
 
Receba diretamente no seu email novidades sobre atualizações deste site, participe de sorteios e também de promoções exclusivas para os leitores e leitoras do The MaoZoleuM

 

   
 
ft
gfh tu tfkj rhk gh gj yi tgju tgu yhul fhbk cgh ty